Foi nas primeiras décadas do século XVI até fins do século XIX que teve início a vinda de negros para o Brasil, alimentando o país com mão-de-obra escrava nos vários ciclos econômicos pelos quais passou desde a sua descoberta até a sua transformação em República. (SILVA, 2005). A chegada dos escravos ao Brasil trouxe diferenças linguísticas, litúrgicas, mitológicas e religiosas. A Igreja Católica Romana ordenou o batismo e o sacramento dos negros, mas mesmo assim foi possível desenvolver e transmitir suas tradições culturais e religiosas mantendo alguns laços com as suas heranças étnicas. Num processo aculturativo, entre nações impulsionadas por fragmentação de memória étnica, esses escravos desenharam um modelo social econômico, estático e evidentemente cultural daquele grupo. (LODY, 1987).
Vale salientar que o sincretismo religioso já existia nas religiões africanas mesmo antes dos negros serem trazidos para o Brasil, caracterizado pela associação entre os deuses das várias etnias. Os orixás são divindades que presidem aspectos da natureza, vistas como forças espirituais humanizadas, com características físicas e personalidades próprias. (SILVA, 2005). Dentre estas tradições africanas o culto aos orixás foi de grande importância nas religiões Afro. Os deuses africanos se aproximavam dos santos católicos, santificados por suas virtudes, valentia, resistências, ou seja, pela sua função de vida na terra, considerados intermediários entre os homens e Deus. (SILVA, 2005).
Verger (1981), cita que São Jorge é identificado com o orixá Oxóssi, Deus dos caçadores, no Rio de Janeiro, e é ligado a Ogum, deus da guerra, compreensível aos dois Orixá¡s, considerando a relação apresentada nas gravuras de São Jorge como um valente cavaleiro em ferro, armado com lança, matando um dragão enfurecido, caça predileta do Deus dos caçadores. No Brasil temos mais de uma terminologia organizada por alguns estados para a religião do candomblé. Este modelo religioso encontrou no Nordeste campo fértil para a disseminação religiosa e o termo Xangô é empregado em Pernambuco. (LODY, 1987: 12).
O orixá seria, em princípio, um ancestral divinizado, que, em vida, estabelecera vínculos sobre certas forças da natureza, como trovão água, vento, assegurando-lhe a possibilidade de exercer atividades como a caça, e trabalhos com metais e plantas. O poder do ancestral orixá após sua morte teria a faculdade de encarnar-se em um de seus descendentes durante o fenômeno do transe de possessão por ele provado. (VERGER, 1981).
Adentrando ao grupo, o adepto se integra numa enriquecedora expansão, passando por um conjunto de rituais que provocam no sujeito um comportamento involuntário nas atividades costumeiras da religião como situações de perdas transitórias da consciência. A crença na manifestação de um orixá, os fenômenos possessivos provocados por meios de práticas evocatórias, nos coloca em um capítulo importante para a reflexão antropológica, psiquiátrica, assim como psicológica, visto que os estados de transe de possessão são comportamentos aculturados, em um processo dito primitivo, que envolvem sentimentos religiosos e históricos da evolução do homem entre os povos.

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